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Amy: sobre preconceitos

“Minha dor é perceber
Que apesar de termos feito tudo o que fizemos
Ainda somos os mesmos e vivemos
Ainda somos os mesmos e vivemos
Como os nossos pais…” (Belchior)

Hoje estou aqui pensando no quanto nós sofremos lavagem cerebral todos os dias e simplesmente aceitamos – e reproduzimos. Aquilo que soa como “melhor” e “socialmente/moralmente aceitável” acaba entrando na cabeça das pessoas como padrão e nós, influenciáveis que somos, nem percebemos – e saímos julgando tudo e todos. Você já percebeu como você na adolescência contestava seus pais e quando fica mais velho acaba ficando igual a eles ou pior? Será que nós não deveríamos parar de julgar os outros e nós mesmos? Vou dar um exemplo.

Assisti ao filme “Amy” no carnaval, que eu estava ansiosa para ver. E o filme mostra claramente como Amy Winehouse lutava contra problemas graves de saúde, transtorno de personalidade borderline (aparentemente sem tratamento), episódios recorrentes de depressão (desde nova), bulimia (que os pais ignoraram), alcoolismo, vício em drogas. Era um quadro bem grave e destrutivo, que foi só piorando. A fama foi só a gota d´água que ajudou a matar uma pessoa que estava frágil demais – a fama aliada ao pai ganancioso, que a abandonou quando criança mas voltou e grudou nela quando viu o seu sucesso (e resolveu jogá-la fundo numa carreira pesada demais).

Por que estou falando da Amy no quesito preconceito? Porque enquanto ela ainda estava viva a mídia e o público faziam piada das doenças dela todos os dias. Faziam piada da magreza e destruição causadas pela bulimia/anorexia/alcoolismo. Por que a doença e a desgraça soam tão engraçadas para as pessoas? Por que transtornos mentais soam tão patéticos para todos? Por que tanto preconceito em cima de uma pessoa que claramente estava muito doente?

Digo que o preconceito reina e manipula as pessoas porque a sociedade aprendeu que é “OK” você julgar pessoas que usam drogas e têm doenças psiquiátricas. É “OK” você se julgar superior a um usuário de drogas ou a um alcoólatra, porque a lavagem cerebral diária nos diz que somos cidadãos “do bem” “batedores de panela”.

Somos formatados a acreditar que “cidadão do bem” é aquele que assiste futebol, trabalha com algo digno e tedioso (veja, trabalhar com música é coisa de vagabundo), bebe socialmente e paga suas contas. Mas se o “cidadão do bem” sonega impostos, trai a esposa todos os dias e não dá a mínima para os filhos, ele ainda assim é “do bem”. Ele ainda é um cidadão socialmente aceitável e adorado (porque, afinal, todos fazem isso! oras…).

Agora se o cidadão é músico, é vagabundo. Se ele tem um visual diferente, é vagabundo e esquisito. Se ele toca à noite em clubes, é um drogado vagabundo. Se ela gosta de ir dançar na balada, é uma puta. Se toma antidepressivos, é um perdedor, tem mais é que morrer mesmo. Se tem transtorno de personalidade… que merda é essa? Isso não existe, isso é frescura, é um vagabundo preguiçoso!! Se é usuário de drogas, não presta, merece morrer. Gente, que horror. As pessoas não entendem a realidade do outro e já saem julgando e se achando superiores…

Que tal você repensar seus conceitos e parar de olhar torto para aquelas pessoas que parecem fora do padrão “do bem”? Que tal parar para olhar melhor para as suas atitudes e as atitudes do cidadão “do bem”?

 

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Interferência

Eu estou um pouco brava, mas vou tentar ser mais neutra… hehehe

Uma coisa que nós fazemos o tempo inteiro, principalmente as pessoas mais velhas, é interferir na vida alheia achando que estamos fazendo bem para as pessoas. Quando gostamos de alguém, queremos dar conselhos, indicar caminhos, orientar, dar palpite. Tudo para o bem da pessoa. Mas qual será o bem em ficar tentando adivinhar o que é melhor para os outros? Será que não somos nós mesmos que sabemos sobre nossas próprias vidas? Será que alguém entende melhor que você o que você está passando ou sentindo? Será que alguém te conhece melhor do que você mesmo se conhece?

E mesmo que os outros saibam mais do que você mesmo sabe, será que é saudável ficar interferindo e impedindo as pessoas de crescerem e tomarem decisões sozinhas?

É preciso tomar muito cuidado com os conselhos que damos e recebemos. Por mais que venha das pessoas que você mais ama  e confia no mundo, essas pessoas não são você, essas pessoas muitas vezes se baseiam unicamente na experiência de vida que tiveram. E a situação de cada um é singular. Saber respeitar a singularidade de cada um é essencial.

Não importa se é sua mãe, seu analista, seu amigo de infância, sua avó, seu mestre, professor, orientador espiritual, pajé etc. A intenção sempre é boa, mas você sabe o que você tem que fazer.

E não adianta ficar angustiado com as decisões e atitudes alheias. Esteja por perto, mas não fique tentando forçar coisas que só a outra pessoa pode realizar.

Somos smurfs eternamente insatisfeitos, reclamões e ranzinzas

“A satisfação é uma escolha, a insatisfação, um hábito”.

Não é impressionante como as pessoas adquirem o hábito de reclamar e estar insatisfeito com tudo? Não basta odiar o trânsito, odiar a cidade, odiar o chefe, odiar a sogra, o cunhado, a rua, a comida, o médico, a amiga, o programa de TV. Tudo incomoda. Até o fato de o seu chefe usar meias marrons te incomoda. O jeito da sua namorada pedir atenção te incomoda. O fato de a mulher na rua estar com a calcinha aparecendo te incomoda. O fato de o seu amigo te mandar um monte de e-mails te incomoda. O fato de aquela amiga nunca te mandar e-mails te incomoda. O fato de sua mãe sempre entrar nos lugares falando alto te incomoda. O fato de o médico usar a caneta do lado esquerdo da camisa te incomoda. Meu Deus!! Por que tanto incômodo nessa vida?

As pessoas não deveriam se preocupar um pouco com seu próprio mundo, sua própria vida e parar de encher o saco? Por que todos se incomodam com tudo? Se a pessoa não está fazendo mal a você, por que ficar incomodado com a mania ou escolha dela? Deixa a pessoa roer unha, ouvir pagode, andar de sapato de salto alto, usar cueca furada, usar regatinha justinha, cabelo colado na testa. Se a pessoa não mora sob o mesmo teto que você, não está incomodando seu espaço, não está atrapalhando sua vida, por que reclamar dela? Só pelo simples prazer de reclamar? O passatempo de muitas pessoas é ficar reclamando, falando mal dos outros, alimentando preconceitos, tirando sarro dos outros, ficando com raiva dos outros… Isso pra mim é falta do que fazer. E se a pessoa te incomoda tanto e você quer o bem da pessoa, vai lá e fala com sinceridade no que a pessoa pode melhorar. Chega de ficar resmungando.

Adendo com citação a Pocahontas

Complementando meu post sobre rótulos, preconceitos e conclusões, resolvi incluir uma parte da música Colors of the Wind, do filme “Pocahontas” (hehehe), porque achei que tinha tudo a ver.

 

You think the only people who are people
Are the people who look and think like you
But if you walk the footsteps of a stranger
You’ll learn things you never knew you never knew

Semideuses (parte II daquele post)

“Álvaro de Campos tem um verso que diz mais ou menos assim: “Sou o intervalo entre o meu desejo e aquilo que os desejos dos outros fizeram de mim”. Intervalo, um espaço indefinido onde a minha verdade se perdeu, enfeitiçada pelo pedido dos outros. Os outros pedem que não sejamos o que somos; que sejamos só o que eles desejam. E ficamos sem rosto. Só máscaras. Cebolas sem cerne, só casca. O Diabo nos coloca entre o martelo e a bigorna e vai nos forçando a tomar decisões. Pode ser que, ao final, tenhamos a experiência suprema de horror. Quando, diante do espelho, não vemos rosto algum, apenas os rostos de outros. Acho que é por isto que todo mundo fala mal do Diabo: porque, além de ser ferreiro de martelo e bigorna, é também especialista em beleza, com espelho na mão. E o reflexo no espelho dói mais que o martelo na bigorna” (Rubem Alves)

 

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