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Alberto Caeiro

“O luar quando bate na relva
Não sei que cousa me lembra…
Lembra-me a voz da criada velha
Contando-me contos de fadas.

E de como Nossa Senhora vestida de mendiga
Andava à noite nas estradas
Socorrendo as crianças maltratadas…

Se eu já não posso crer que isso é verdade,
Para que bate o luar na relva?”

Onde é que há gente nesse mundo?

Poema em Linha Reta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.

Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida…

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos – mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

(Álvaro de Campos)

 

Eu amo Fernando Pessoa. É difícil não gostar né… não precisa de muito. Alguns até mesmo não sabem que estão citando Fernando Pessoa… hehehe Como o meu amigo disse certa vez: “Como diz aquele velho provérbio chinês, tudo vale a pena se a alma não é pequena!”. Esse poema que eu coloquei eu já mandei para vários amigos e ele é muito significativo pra mim. Um professor de álgebra, uma graça, certa vez leu em aula, quando eu estava no colegial. Eu sempre lembro desse trecho… “Arre, estou farto de semideuses!” hehehe E eu fico cansada mesmo, várias vezes por dia. Tudo sempre é tão perfeito e tão falso, tão feliz e tão encenado, tão hipócrita e tosco… hehehe E olha que eu não estou mal humorada enquanto escrevo este post.

Eu achei que esse poema ia bem com o fim do meu blog e as minhas nóias. Sou mega-noiada e muitas vezes ingênua. Eu às vezes acredito que as pessoas são perfeitas e felizes mesmo!! Mas como diz o Rubem Alves (meu outro favorito, como já sabem): “As pessoas totalmente felizes não conseguem pensar pensamentos interessantes. É preciso uma pitada de dor para que o pensamento pense bonito”. Enfim, não desejo dor para ninguém, obviamente, mas sim que as pessoas saibam lidar com ela e perceber que ficam mais belas e com os olhos mais bonitos quando passam por certas coisas.