Mês: fevereiro 2016

Amy: sobre preconceitos

“Minha dor é perceber
Que apesar de termos feito tudo o que fizemos
Ainda somos os mesmos e vivemos
Ainda somos os mesmos e vivemos
Como os nossos pais…” (Belchior)

Hoje estou aqui pensando no quanto nós sofremos lavagem cerebral todos os dias e simplesmente aceitamos – e reproduzimos. Aquilo que soa como “melhor” e “socialmente/moralmente aceitável” acaba entrando na cabeça das pessoas como padrão e nós, influenciáveis que somos, nem percebemos – e saímos julgando tudo e todos. Você já percebeu como você na adolescência contestava seus pais e quando fica mais velho acaba ficando igual a eles ou pior? Será que nós não deveríamos parar de julgar os outros e nós mesmos? Vou dar um exemplo.

Assisti ao filme “Amy” no carnaval, que eu estava ansiosa para ver. E o filme mostra claramente como Amy Winehouse lutava contra problemas graves de saúde, transtorno de personalidade borderline (aparentemente sem tratamento), episódios recorrentes de depressão (desde nova), bulimia (que os pais ignoraram), alcoolismo, vício em drogas. Era um quadro bem grave e destrutivo, que foi só piorando. A fama foi só a gota d´água que ajudou a matar uma pessoa que estava frágil demais – a fama aliada ao pai ganancioso, que a abandonou quando criança mas voltou e grudou nela quando viu o seu sucesso (e resolveu jogá-la fundo numa carreira pesada demais).

Por que estou falando da Amy no quesito preconceito? Porque enquanto ela ainda estava viva a mídia e o público faziam piada das doenças dela todos os dias. Faziam piada da magreza e destruição causadas pela bulimia/anorexia/alcoolismo. Por que a doença e a desgraça soam tão engraçadas para as pessoas? Por que transtornos mentais soam tão patéticos para todos? Por que tanto preconceito em cima de uma pessoa que claramente estava muito doente?

Digo que o preconceito reina e manipula as pessoas porque a sociedade aprendeu que é “OK” você julgar pessoas que usam drogas e têm doenças psiquiátricas. É “OK” você se julgar superior a um usuário de drogas ou a um alcoólatra, porque a lavagem cerebral diária nos diz que somos cidadãos “do bem” “batedores de panela”.

Somos formatados a acreditar que “cidadão do bem” é aquele que assiste futebol, trabalha com algo digno e tedioso (veja, trabalhar com música é coisa de vagabundo), bebe socialmente e paga suas contas. Mas se o “cidadão do bem” sonega impostos, trai a esposa todos os dias e não dá a mínima para os filhos, ele ainda assim é “do bem”. Ele ainda é um cidadão socialmente aceitável e adorado (porque, afinal, todos fazem isso! oras…).

Agora se o cidadão é músico, é vagabundo. Se ele tem um visual diferente, é vagabundo e esquisito. Se ele toca à noite em clubes, é um drogado vagabundo. Se ela gosta de ir dançar na balada, é uma puta. Se toma antidepressivos, é um perdedor, tem mais é que morrer mesmo. Se tem transtorno de personalidade… que merda é essa? Isso não existe, isso é frescura, é um vagabundo preguiçoso!! Se é usuário de drogas, não presta, merece morrer. Gente, que horror. As pessoas não entendem a realidade do outro e já saem julgando e se achando superiores…

Que tal você repensar seus conceitos e parar de olhar torto para aquelas pessoas que parecem fora do padrão “do bem”? Que tal parar para olhar melhor para as suas atitudes e as atitudes do cidadão “do bem”?