Feminismo, Gaslighting e Imperfeição na “Regra do Jogo”

a-regra-do-jogo_t101189_png_290x478_upscale_q90

Gente, eu assisti a novela das 9 sim. Me julguem rs. Eu não ia assistir, confesso, mas como meu namorado assistia eu fazia companhia e acabei gostando da novela. Na verdade, eu amava e odiava ao mesmo tempo. Não gostava de várias cenas, sofria, mas não conseguia parar mais de assistir. A novela acabou semana passada e confesso que gostei bastante e vi coisas positivas.

Coisas positivas…

(1) A novela, 90% do tempo, teve um posicionamento mais feminista. Ok, não foi perfeito, mas já é uma influência mais positiva para a mulherada. As personagens confrontaram muitos machismos e lutaram. Domingas parou de apanhar, Nora confrontou Gibson inúmeras vezes, até estapeou o homem. A novela mostrou muito o “gaslighting“, prática que os personagens homens da novela gostavam de adotar com as mulheres (Gibson fez questão de internar a filha e a neta em “hospícios”).

(2) Empoderamento feminino parte 2. Houve personagens femininas independentes de vários pontos de vista. Adis Abeba (nome curioso, mas é a capital da Etiópia) era uma personagem super do bem, forte, solteira, ex-prostituta, de personalidade forte, mãe-super-protetora, que virou dona da favela depois de muita luta. Belisa terminou a novela solteira e fotógrafa. Nelita terminou a novela também solteira e artista reconhecida. Por que é positivo elas terem terminado a novela solteiras? Porque mostra que mulheres podem ser felizes sem precisarem casar e ter filhos. Reforça o empoderamento feminino e a livre escolha.

(3) Questionou o maniqueísmo e mostrou que o ser humano é complexo e imperfeito. Isso foi muito importante. Ainda mais num momento em que os brasileiros estão em guerra, acreditando em “Bem X Mal”. Toda novela/filme costuma simplificar/planificar o ser humano: herói perfeito, vilão malvado. Mocinha perfeita e linda. Vilã feiosa e malvada. Isso não existe. O ser humano é complexo demais. Mesmo a pessoa mais decente pode falhar. Mesmo a pessoa mais criminosa pode um dia acertar ou mudar. Não podemos simplificar e botar as pessoas em caixinhas. O excesso de idealização e maniqueísmo produz seres humanos mais neuróticos, menos conscientes, mais ingênuos e que rejeitam seu lado instintivo e sombrio.

(4) Tentou evitar a eterna guerra “Ricos x Pobres” e “Comunismo x Capitalismo”. Este é um ponto delicado. A novela errou bastante nesse ponto mas fez alguma tentativa de mudança. O que eu vi de positivo? Um exemplo: Cesário, que era ironizado por ser o “comunistinha” da família rica, no final acabou assumindo o poder na empresa farmacêutica do pai psicopata capitalista. Cesário ia rejeitar a herança da família e depois voltou atrás (deduzo). Isso acaba com aquela ideia disseminada de que “riqueza é coisa ruim”, “ser rico é para pessoas sem coração”. De certa forma a novela tentou derrubar alguns paradigmas.

(5) Mostrou que o crime e o tráfico estão totalmente ligados ao cenário político e às classes mais altas. Constatação triste e conhecida já.

Coisas negativas…

(1) Favela Ostentação. A novela fez questão de pegar a favela e torná-la uma comunidade perfeita, cheia de riqueza, ostentação, turismo, cheia de gente bonita, alegre, honesta, paredes coloridas, luzes, baladas, música. Teria sido positivo mostrar a favela como ela é, um lugar humano, verdadeiro, que existe, com problemas também, que é o lar de um monte de gente sim (inclusive de gente feliz e honesta), para acabar com eventuais preconceitos. Mas ficou exagerado demais o que fizeram. O objetivo da novela era mostrar que toda felicidade do mundo está em morar na favela! Tudo que faz alguém ser realizado na vida é… morar na favela. Todas as pessoas honestas do mundo moram onde? Na favela! Todos os personagens bonzinhos da novela abandonam mansões e lugares bonitos para morar onde? Na favela! A partir do momento que a favela está sendo divulgada como point cool, a moda do momento,  vemos impactos sociais e econômicos: os preços de aluguel estão sendo afetados, os moradores originais estão tendo que ir embora, fechar seus negócios, procurar outro lugar.

(2) Transtornos mentais mal retratados. Muito pouco profissional como retrataram o transtorno bipolar da Nelita. Podiam ter explorado melhor e ter esclarecido a doença aos espectadores, ao invés de criar mais alienação. Os transtornos mentais são pouco explorados pela mídia e pouco compreendidos pela população.

(3) Ter filhos é a solução para tudo, vamos lá, galera, fazer uns 10 filhos! Isso foi tão exagerado que foi cômico. Todo mundo que é importante na novela teve uma pancada de filhos. O tempo inteiro a novela mostra que toda felicidade depende dos filhos. É um exagero… Já temos um planeta com população exagerada, sendo que muitos não têm o que comer e muitos não têm capacidade de educar crianças. Então por que a novela incentiva a população a ter 10 filhos? Atualmente é importante deixar o tema aberto para discussão, pois são muitas as mulheres que resolvem espontaneamente não ser mães. O tema dá pano pra manga!

Suicídio: precisamos falar sobre o assunto

Todo mundo conhece um caso de suicídio ou tentativa de suicídio ao seu redor: pode ser na família, na família da esposa, no trabalho, no condomínio onde mora. Acontece bastante, infelizmente, e poucas pessoas sentem-se à vontade para falar sobre isso ou mesmo reconhecer que isso existe. É o típico “tema que não se deve tocar”. E muitas pessoas quando resolvem tocar no assunto não compreendem bem a delicadeza e o cuidado que o tema deveria receber ao ser abordado. Veja abaixo alguns cuidados:

1) Evite fazer piadas sobre o assunto. Embora as redes sociais estejam cheias de piadas e comentários diversos, evite tratar de forma pouco séria um assunto que causa tanta tristeza e transtorno aos familiares dos suicidas.

2) Não tenha medo de falar sobre o assunto. Aquela sua tia distante se suicidou há alguns anos mas você tem vergonha/medo de tocar no assunto. Não tenha. Trate o assunto de forma séria e humana e fale sim sobre ele. Todos passam por alguma situação parecida, não é “pecado” ou “crime” falar sobre isso ou reconhecer que existe o suicídio. Se mais pessoas falassem sobre isso possivelmente os casos de suicídios seriam menos ignorados, haveria mais preocupação pública e privada em ajudar a tratar as pessoas (e talvez evitar mais mortes).

3) Evite, evite, evite julgar. Evite julgamentos. Falar: “Mas gente, a vida é tão bonita, como alguém pode fazer algo tão horrível e egoísta?” “Aaah, mas um cara desses tinha que morrer mesmo”. “Ah, quer se matar? Então se mata logo e não enche o saco!” “Pô, mas não entendo como ele se matou tendo filhos!” “Não dá para aceitar um cara que se mata sendo tão rico e talentoso!!”. Ninguém tem ideia do que a pessoa passou ou estava passando. Você não sabe se a pessoa tinha doença crônica degenerativa, depressão, transtorno bipolar, ou qualquer transtorno de personalidade. Você não sabe se a pessoa foi estuprada, se era abusada pelo pai, se apanhava do marido, se era infeliz na carreira. Você não sabe nada da vida daquela pessoa e quer julgar, resolver o problema dela de uma forma simplista? Que tal exercitar o não julgamento, a empatia e a compreensão?

4) Se você é profissional da saúde ou de ensino, tome cuidado REDOBRADO. Se você decidiu seguir uma profissão que “cuida de pessoas” ou “forma pessoas”, além de coragem e vontade, você tem uma responsabilidade muito grande. As pessoas são muito influenciadas pelas palavras dos médicos, psicólogos, professores. O mundo precisa de profissionais cuidadosos.

5) Não use sua religião ou espiritualidade como parâmetro para todos. Existem diferentes entendimentos religiosos/espirituais sobre a morte, a vida e o suicídio. Como você não sabe quais são as crenças das outras pessoas, evite usar as suas como verdade/ponto de referência. Lembre-se que não é possível impor nossas crenças. Daí entra a empatia de novo, o não-julgamento e a vontade de compreender o mundo do outro. Pode ser que seu filho ou seu paciente tenham outra visão de mundo, totalmente diferente. É importante lidar com isso.

 

 

 

Como os memes e a polarização nos deixaram mais intolerantes

O que está acontecendo com o Braseeel? Estamos mais loucos, divididos igual torcida de futebol, intolerantes. Até tentar ser da paz irrita as pessoas.

Eu sou a favor da bandeira branca. Sou a favor de fazer análises sob um ponto de vista mais global, mais humano, mais coletivo, mais isento. E não se irritem com isso.

Tenho a impressão de que nossas neuroses estão ficando fora do controle. Estamos exaustos. Estressados. Desacreditados. Insatisfeitos. E, principalmente, estamos sendo facilmente influenciados (inconscientemente ou não) pelos memes dos amigos/inimigos, pelas imagens, pelas provocações dos “inimigos”, pelos espetáculos partidarizados da mídia e dozamigos.

Hoje nos irritamos mais. Está difícil não se revoltar com um meme mentiroso/agressivo. Está difícil não se irritar ao ouvir: “VACAA”, “LADRÃAO”, “MENTIROSO”, “BURRO”.

Não estou defendendo que todos sejamos mortos, apáticos, sem ação. Estou defendendo que estamos gastando nossas energias do jeito errado. E não estamos percebendo que nossa revolta só está atendendo aos interesses daqueles que querem zoar o barraco. Povo dividido é muito mais fácil de manipular.

O mundo é movido pelas palavras e atitudes que colocamos para fora. Ou seja, tudo que falamos, postamos e mostramos muda o que está em nosso redor. Somos influenciados pela energia do outro. Você não vai transformar um tucano em um petista ou um petista em um tucano. Mas você passou a bola pro seu amigo. Passou sua energia de revolta pros coleguinhas e amigos. O nervosismo de um passa para o outro, que passa para o outro, daí até os filhos sofrem com o nervosismo dos pais, até o cachorro sente a vibe pesada. Percebe? Por que alimentar o negativismo?

Os problemas do mundo não estão na política. A política é apenas um aspecto e é um reflexo da humanidade. O problema é humano. Todos os problemas do mundo estão dentro de cada pessoa. Sei que esse tipo de papo soa clichê para as pessoas, mas é algo tão óbvio que não devia ser ignorado. Reflita:

“Vocês, que tanto pedem por mudanças, (…) ainda não compreenderam que todas as vezes que despejam a resolução de seus problemas nas mãos de outros, estão a entregar o seu Poder Pessoal, perdem a automaestria e ficam à mercê do mundo externo.

As mudanças que buscam não estão nas mãos dos vencedores ou perdedores das suas eleições. Saiam das ilusões. 

Não existem salvadores. 
Vocês devem fazer a parte que lhes cabe. O seu mundo está em suas mãos.

Assumam o comando de si mesmos e de suas vidas pessoais, em primeiro lugar. Assumam suas responsabilidades no que se refere ao estado em que se encontra a sua realidade. Seus políticos não são os únicos responsáveis. Vocês todos são os coadjuvantes”.

“Ok, então o que você sugere?”

Ah, algumas ideias…

(1º) Evite tirar conclusões sobre o que os outros pensam/dizem. Hoje está fácil se irritar com o que as pessoas falam/postam. Que tal dar o benefício da dúvida? Muitos conflitos surgem por causa de nossa interpretação e não daquilo que a pessoa quis dizer. Você NUNCA vai saber o que realmente se passa na cabeça da outra pessoa. Então, não perca tempo e energia tentando agredi-la ou mudar sua opinião ou mesmo entender sua opinião (que parece estranha). Deixe passar. Desapegue.

(2º) Evite repassar mensagens engraçadinhas que só incentivam a polarização/a revolta. O que parece engraçado para você pode na verdade: (a) ser mentira; (b) ser ofensivo demais; (c) gerar mais conflitos e ódio.

(3º) Evite idealizar ou demonizar um lado ou os dois lados. Cuidado com extremos. Não existem santos nem capetas. Sério. Ninguém é perfeito. Cuidado com opiniões apaixonadas ou cheias de ódio sobre qualquer pessoa. Ninguém é obrigado a gostar ou desgostar das pessoas/instituições que você gosta. Infelizmente as pessoas admiram aspectos diferentes e você não vai mudar isso nos outros. Além disso, quanto mais idealizamos alguém, maior a chance de quebrarmos a cara, porque todos erram. E quanto a demonizar alguém: sério, por que perder energia odiando alguém? (fale sobre isso na terapia ou tome uma cerveja)

(4º) Repasse ideias/palavras construtivas. Propague sugestões úteis (ao invés de só reclamar). Reclamar é fácil. Mas ao invés de xingar os outros e criticar, que tal mostrar aquilo que você gostaria de ver sendo construído/apoiado? Que tal usar seu tempo refletindo, criando novas ideias para MELHORAR AS COISAS? Se for para criticar, use a crítica de forma pontual, positiva, assertiva.

(5º) Evite levar as coisas para o lado pessoal. Esse meme não é contra você! Nem tudo que as pessoas postam é para te provocar ou ofender suas convicções, paixões, ideais, família. Os xingamentos e piadinhas não são para ofender você ou seus queridos. O ódio alheio é apenas desabafo, vazamento das neuroses pessoais, descontentamentos que todos nós temos. Todos. Não tem nada a ver com você.

(6º) Tente enxergar que estamos todos no mesmo barco e que disputas enfraquecem todos os lados. Sei que é difícil, mas tente entender o lado do “outro”. Ele pode pensar totalmente diferente de você, mas aposto que em algum aspecto vocês concordam e podem se apoiar. Aposto que ele também tem um familiar doente. Ele também já ficou desempregado ou viu alguém que ama morrer. Todos somos humanos e ninguém sabe qual é o inferno que o outro passa. Vamos ser menos raivosos e vingativos, isso só alimenta nosso próprio sofrimento.

images

Medite? Eu não tenho tempo, eu não consigo!

tirinha_coelho

Você quer começar a meditar e não sabe por onde começar? Saiba que você não está sozinho e que começar é mais simples do que parece. A meditação é praticada há milênios, em diferentes culturas e religiões. Hoje a prática está mais amplamente disseminada e não é preciso seguir certas crenças espirituais/religiosas para aprender. O mais importante é a intenção de melhoria de cada indivíduo e a persistência em praticar.

Primeiramente, pra que meditar? Os benefícios são inúmeros e hoje são estudados e comprovados por pesquisadores e universidades renomadas. Alguns exemplos:

  • Melhora a memória de longo prazo, a concentração e o foco: você trabalha melhor, estuda melhor e obtém maior eficiência em suas atividades;
  • Melhora muito o sono e a disposição durante o dia;
  • Melhora o seu controle sobre as emoções no dia-a-dia. Meditar aprimora suas reações e atitudes no trabalho e nos relacionamentos. Ou seja, você passa a evitar perder a paciência com coisas pequenas ou no trânsito, por exemplo. Você passa a ter um nível de consciência e autocontrole diferentes.

Mas eu não consigo meditar, isso é para pessoas zen-namastê. Não, não é apenas para pessoas zen. Meditação é tão simples que qualquer pessoa pode fazer, até crianças pequenas fazem hoje em dia nas escolas. Veja bem, crianças são agitadas, certo? Então você também pode. Até grandes executivos/CEOs milionários, sem tempo para nada, fazem. Então por que parece impossível? Pode ser que você esteja pensando na meditação como prática monástica inalcançável – excesso de idealização. Para meditar você não precisa ficar em posição de lótus, raspar a cabeça, nem encontrar ambiente perfeito com som de pássaros. Não é preciso ficar 30 minutos em estado perfeito de vazio. Não é preciso fazer curso. Não existe “técnica perfeita”. Não é preciso “sentir coisas diferentes”, receber mensagens divinas, esvaziar tudo e ser perfeito.

Mas eu não tenho tempo! Muitas vezes tempo é questão de prioridades. Reflita: se você tem tempo para postar foto no Facebook, assistir série ou novela, mandar piadas no Whatsapp, você tem alguns minutinhos para meditar.

Mas então o que é preciso para meditar? Você precisa se comprometer a separar um tempinho do seu dia (pode começar com 1 min, 5 min) sem interrupções de telefone/celular/filhos, para parar. Parar. Sentar em silêncio. Respirar devagar. Desacelerar a mente. Tentar desligar-se dos pensamentos ou apenas observá-los. Existem muitas formas de praticar meditação, você pode escolher um mantra, uma visualização, uma música, uma sequência de inspirações/expirações focadas. O mais importante é inserir o hábito na rotina e praticar um pouco todos os dias. Algumas opções para começar:

  • Baixe um aplicativo de meditação para celular (tem vários para IOS/Android) como o Calm (clique aqui) e siga as orientações. Ou apenas ouça os sons relaxantes;
  • Vá a alguma palestra gratuita ou visite um templo ou centro de práticas meditativas (há várias opções gratuitas e para todos os gostos);
  • Se você gosta de criar um ambiente próprio, compre incenso, separe um espaço na varanda, no jardim, faça a prática virar um prazer, um conforto.

Dicas de sites e locais para aprender:

Mas eu não sinto diferença, acho que não estou fazendo certo. Nosso problema é que queremos resultados imediatos. Os efeitos nunca são rápidos, precisamos praticar, persistir e ter paciência. Você por acaso vai para a academia e no dia seguinte já está com a barriga tanquinho? E mesmo que você não consiga esvaziar muito a mente, só a prática de tentar parar por alguns minutos já vai ser um benefício inicial. Depois você vai aumentando  aos poucos a duração, experimentando novas formas de meditação, observando outros efeitos. O importante é decidir começar e criar o hábito. Você vai se surpreender com os efeitos sutis que vão surgindo. Conte-nos depois como foi o início da prática, boa meditação!

 

 

Amy: sobre preconceitos

“Minha dor é perceber
Que apesar de termos feito tudo o que fizemos
Ainda somos os mesmos e vivemos
Ainda somos os mesmos e vivemos
Como os nossos pais…” (Belchior)

Hoje estou aqui pensando no quanto nós sofremos lavagem cerebral todos os dias e simplesmente aceitamos – e reproduzimos. Aquilo que soa como “melhor” e “socialmente/moralmente aceitável” acaba entrando na cabeça das pessoas como padrão e nós, influenciáveis que somos, nem percebemos – e saímos julgando tudo e todos. Você já percebeu como você na adolescência contestava seus pais e quando fica mais velho acaba ficando igual a eles ou pior? Será que nós não deveríamos parar de julgar os outros e nós mesmos? Vou dar um exemplo.

Assisti ao filme “Amy” no carnaval, que eu estava ansiosa para ver. E o filme mostra claramente como Amy Winehouse lutava contra problemas graves de saúde, transtorno de personalidade borderline (aparentemente sem tratamento), episódios recorrentes de depressão (desde nova), bulimia (que os pais ignoraram), alcoolismo, vício em drogas. Era um quadro bem grave e destrutivo, que foi só piorando. A fama foi só a gota d´água que ajudou a matar uma pessoa que estava frágil demais – a fama aliada ao pai ganancioso, que a abandonou quando criança mas voltou e grudou nela quando viu o seu sucesso (e resolveu jogá-la fundo numa carreira pesada demais).

Por que estou falando da Amy no quesito preconceito? Porque enquanto ela ainda estava viva a mídia e o público faziam piada das doenças dela todos os dias. Faziam piada da magreza e destruição causadas pela bulimia/anorexia/alcoolismo. Por que a doença e a desgraça soam tão engraçadas para as pessoas? Por que transtornos mentais soam tão patéticos para todos? Por que tanto preconceito em cima de uma pessoa que claramente estava muito doente?

Digo que o preconceito reina e manipula as pessoas porque a sociedade aprendeu que é “OK” você julgar pessoas que usam drogas e têm doenças psiquiátricas. É “OK” você se julgar superior a um usuário de drogas ou a um alcoólatra, porque a lavagem cerebral diária nos diz que somos cidadãos “do bem” “batedores de panela”.

Somos formatados a acreditar que “cidadão do bem” é aquele que assiste futebol, trabalha com algo digno e tedioso (veja, trabalhar com música é coisa de vagabundo), bebe socialmente e paga suas contas. Mas se o “cidadão do bem” sonega impostos, trai a esposa todos os dias e não dá a mínima para os filhos, ele ainda assim é “do bem”. Ele ainda é um cidadão socialmente aceitável e adorado (porque, afinal, todos fazem isso! oras…).

Agora se o cidadão é músico, é vagabundo. Se ele tem um visual diferente, é vagabundo e esquisito. Se ele toca à noite em clubes, é um drogado vagabundo. Se ela gosta de ir dançar na balada, é uma puta. Se toma antidepressivos, é um perdedor, tem mais é que morrer mesmo. Se tem transtorno de personalidade… que merda é essa? Isso não existe, isso é frescura, é um vagabundo preguiçoso!! Se é usuário de drogas, não presta, merece morrer. Gente, que horror. As pessoas não entendem a realidade do outro e já saem julgando e se achando superiores…

Que tal você repensar seus conceitos e parar de olhar torto para aquelas pessoas que parecem fora do padrão “do bem”? Que tal parar para olhar melhor para as suas atitudes e as atitudes do cidadão “do bem”?

 

Inocência, Gonzaguinha e Direito

728439._SX540_SY540_

Terminei de ler meu primeiro livro do ano, O sol é para todos (“To kill a mockingbird” no original), de Harper Lee. É um romance super clássico que as crianças leem na escola nos EUA e eu fiquei curiosa e resolvi ler. Gostei muito, até coloquei uma mini review no Goodreads, coisa que eu tenho preguiça de fazer. Eu vi no Goodreads críticas muito boas, uma bem ruim e algumas crianças perdidas querendo deixar de ler o livro para a escola. E quem me conhece provavelmente vai entender por que gostei tanto do livro: ele toca bem naquele tema de preconceito e injustiça, que muitas vezes me revolta. Além disso, ele traz uma visão ainda inocente das crianças, no meio de um processo de amadurecimento e conhecimento do “mundo como ele é” (pois o livro é escrito do ponto de vista de uma menina de 9 anos). Como sou uma pessoa excessivamente idealista e 8 ou 80, acabo ficando sensível demais quando vejo injustiças ou bizarrices. Estou até agora na terapia aprendendo a lidar com essas emoções à flor da pele. Então percebi que gostaria de ter lido esse livro quando era mais nova, eu já ia adorar. É um livro bom para adolescentes/jovens, mas pode ser lido a qualquer momento. Ele tem uma delicadeza e uma humanidade que podem inspirar qualquer pessoa. É bom, por exemplo, para quem tem filhos. O personagem Atticus Finch é um pai que muitos podem olhar com carinho, projetar, criar identificação, ter pena, admirar ou sorrir.

O livro me trouxe também a lembrança da ambiguidade da profissão do advogado. Por um lado, ela é rotineira, tediosa, maçante e ingrata. Por outro, ela é muito incompreendida no que tem de mais belo, a justiça que poucos entendem. Ou seja, apesar de eu odiar a profissão e de ela ser mal vista, ela é muito bonita sim. No primeiro ano da faculdade eu logo me decepcionei com o mundo do Direito. Mas em uma conversa com um monitor de IED tive um lampejo e um breve entendimento do quanto o Direito é bonito. Nos últimos anos eu só senti o quanto advogar é chato pra c****** e não vale a pena o stress. Mas eu vou sempre admirar a parte que poucos entendem. E fico contente de que esse livro, escrito nos anos 60, tenha me lembrado daquilo que eu já tinha esquecido.

Uma das críticas que vi no Goodreads era em relação ao excesso de inocência das crianças do livro. Que bizarro. Deixa as crianças serem crianças, p****! O cara provavelmente projetou uma irritação dele naqueles personagens. Porque pra mim o excesso de inocência do livro só deu alento. Como a música do Gonzaguinha, “eu fico com a pureza das respostas das crianças”…

 

Vamos falar sobre nosso lado mais agressivo

Você já notou como as pessoas se transformam no trânsito? E você também já notou o quanto algumas pessoas ficam agressivas e raivosas nas redes sociais? Então, vamos falar sobre a nossa “sombra”.

pateta

Sombra, em psicologia analítica, refere-se ao arquétipo que é o nosso ego mais sombrio. É, por assim dizer, a parte animalesca da personalidade humana. Para Carl Gustav Jung, esse arquétipo foi herdado das formas inferiores de vida através da longa evolução que levou ao ser humano. A sombra contém todas aquelas atividades e desejos que podem ser considerados imorais e violentos, aqueles que a sociedade, e até nós mesmos, não podemos aceitar” (do Wikipedia)

Nos últimos tempos eu andei pensando por que o mundo parece estar desandando. Na verdade ele não está desandando. Cheguei à conclusão de que o mundo é o mesmo, a diferença é que hoje em dia tudo que você faz ou deixa de fazer está nas redes sociais. Todas as mentiras, meias verdades, tristezas, decepções, baixarias estão na nossa cara o tempo todo. Sem filtro, sem poupar ninguém. As pessoas postam notícias e comentários no Facebook sem checar se aquilo é verdade, se está maliciosamente deturpado. Sem se importar se tem um cachorro dilacerado ou uma criança faminta. Cadê o filtro das pessoas?

O mundo não está pior, gente. As pessoas não estão piores. Pedofilia, atrocidades, mortes, preconceitos, bullying sempre houve. Para mim, o que acontece é que as pessoas perdem a noção e o medo na internet. Elas não têm medo de ser julgadas, recriminadas, punidas. Não têm medo das consequências. Isso acaba liberando a “sombra” das pessoas. A sensação de estar atrás da tela do computador dá uma falsa sensação de “proteção” e “blindagem”: “há, posso falar e fazer o que eu quiser!!!” É mais ou menos o que acontece com as pessoas dentro de seus carros confortáveis. As pessoas se transformam dentro dos carros: viram bichos, competidores, assassinos, babam, gritam, xingam, tentam matar ciclistas e pedestres. Entendo que os carros dão uma sensação de  “proteção”, “blindagem” e “invencibilidade” que tornam tudo liberado. Não é à toa que muitas pessoas adoram carros gigantes: mais sensação de poder. Mais sensação de proteção e invencibilidade (que elas não possuem nas suas vidas diárias). E daí está explicado por que todo mundo odeia ciclistas: existe ser humano mais frágil, mais pelado do que um ciclista? Para algumas pessoas é irritante ver alguém andando de boa sem armadura e sem proteção. Coisa de gente metida a corajosa demais! [nota: isso ajuda a entender o significado da famosa “Pedalada Pelada”. Não é um bando de gente pervertida se exibindo. É gente de verdade mostrando a fragilidade das pessoas que optam por um meio de transporte mais “pelado”, mais exposto]

Enfim, isso tudo para dizer que muitas pessoas têm o seu lado sombrio totalmente inconsciente e sem controle. Isso mostra por que uma boa psicoterapia ajudaria muitas pessoas, de todos os tipos (não, psicoterapia não é só para depressivos e pessoas fracas, como muitos defendem). É extremamente importante entender certos sentimentos, desejos, raivas que estão reprimidos. Se você não entende o que está aí dentro, uma hora isso vai explodir da maneira mais errada e no momento mais inapropriado. Você vai explodir com seu cachorrinho, vai gritar com seus filhos. Ou vai passar de carro por cima de um pedestre ou do seu chefe. Autoconhecimento é tudo.